Links do dia (8/7)

1 – Uma análise da produção acadêmica em Economia dos EUA

2 – Por que assistimos algumas séries mais rápido do que outras? Netflix diz ter uma resposta

3 – Em tempos de Brexit, Trumps e Bolsonaros, por que eleitores andam ignorando a opinião de especialistas?

4 – Ótimo infográfico sobre fragmentação partidária no Brasil e no mundo

5 – Praticamente uma ode à amizade (e aos rivais também). Artigo sobre a importância dos peers sobre a perseverança dos indivíduos

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Contra os memes contra a meritocracia

Uma nova moda se alastra com toda força pela esquerda facebokiana. Não, não estou falando dos textões ou das notícias de site do calibre de um Brasil247. Falo sobre os memes com meritocracia como tema. Esse é um exemplo representativo:

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Essa simples imagem resume de uma só vez alguns dos erros mais irritantes e comuns da esquerda facebokiana. O primeiro deles é a prosopopéia fora de lugar. Ora,  meritocracia não é uma pessoa. Nem sequer uma mensagem unificada como um teorema, uma lei, instituição ou algo parecido. Logo, ela não pode dizer nada sobre o efeito do esforço do garotinho. Dizer “segundo a meritocracia” é tão sem sentido quanto dizer “segundo a parede” ou “segundo a multiplicação”. Essa é uma forma de falar imprecisa, e por isso inadequada, comum mesmo em discussões mais educadas. Falta na frase um sujeito que de fato seja capaz de agir e falar em sentido não-metafórico. Que tal trocar por “segundo fulano” ou “segundo os defensores da meritocracia”? Vejamos mais meme:

 

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Esse já é melhor no sentido de evitar uma prosopopéia desnecessária. Porém, comete um erro factual em relação ao grupo criticado. Ora defender a meritocracia, não significa dizer que ela existe. Significa dizer que ela é um ideal a ser alcançado. Tal distinção é fundamental e rotineiramente esquecida, mesmo em discursos sofisticados, sobre a meritocracia.  Isso é uma grave falha de reações públicas pois, ao gerar confusão ao leitor, fica parecendo que a pessoa é contra a ideia de que pessoas que trabalham mais devam receber mais. Na verdade, muitos provavelmente compartilham justamente porque se revoltam com o fato de tantos trabalharem tanto e terem tão pouco (talvez não todos, mas isso fica para depois.). Aí o amiguinho reaça não entende  e perde-se a chance de convencê-lo de algo.

Suponhamos então que você deseja compartilhar um desses memes. Já vimos que a mensagem dele não é exatamente contra a meritocracia, mas sim uma tentativa de mostrar que não a atingimos ainda. Se é assim, faça-se a pergunta, eu estou realmente trazendo alguma informação nova? A resposta é não.

Sinceramente, não conheço ninguém, em qualquer parte do espectro ideológico, que acredite que vivemos em uma meritocracia. “Mas e os liberais?”, alguém pode perguntar. Os liberais sabem que o governo pega o dinheiro da população e o distribui para os poderosos. Que mérito há na riqueza de Eike Batista? “E os conservadores?”, podem insistir. Os conservadores que conheço passam o dia reclamando da corrupção dos políticos, especialmente do PT. Um conservador que acredita em meritocracia deveria ser fã do filho do Lula, pelo seu rápido enriquecimento. Enfim, pode procurar. Você não vai encontrar quem esteja disposto a dizer algo como “na nossa sociedade, todos tem o que merecem”.

Concluindo, os numerosos tweets, memes  e textões sobre a meritocracia são apenas repetição de informação conhecida. Se ela parece agregar valor é porque sua forma confusa de se comunicar o faz ver profundidade onde há apenas um vazio.

No próximo post, defino  melhor algumas das visões mais comuns sobre o que seria uma sociedade meritocrática e apresento minhas visões sobre a sua desejabilidade. Mas já adianto uma coisa, eu sou contra.

 

 

 

 

 

 

Links do dia (25/5)

1 – As publicações mais citadas em Ciências Sociais de acordo com o Google Scholar

2 – O Google faz você se sentir mais inteligente (ênfase no sentir!)

3 – É possível ensinar com games sim. Excelente canal do YouTube com vários vídeos legais sobre tópicos interessantes utilizando games 8-bit

4 – A Economia por trás da decisão de hospedar Olimpíadas

5 – Mulheres preferem competições pequenas?

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Artigo da semana: a ciência do “bullshit”

O artigo de hoje é “On the reception and detection of pseudo-profound bullshit”. Abaixo o resumo dos autores:

Although bullshit is common in everyday life and has attracted attention from philosophers, its reception (critical or ingenuous) has not, to our knowledge, been subject to empirical investigation. Here we focus on pseudo-profound bullshit, which consists of seemingly impressive assertions that are presented as true and meaningful but are actually vacuous. We presented participants with bullshit statements consisting of buzzwords randomly organized into statements with syntactic structure but no discernible meaning (e.g., “Wholeness quiets infinite phenomena”). Across multiple studies, the propensity to judge bullshit statements as profound was associated with a variety of conceptually relevant variables (e.g., intuitive cognitive style, supernatural belief). Parallel associations were less evident among profundity judgments for more conventionally profound (e.g., “A wet person does not fear the rain”) or mundane (e.g., “Newborn babies require constant attention”) statements. These results support the idea that some people are more receptive to this type of bullshit and that detecting it is not merely a matter of indiscriminate skepticism but rather a discernment of deceptive vagueness in otherwise impressive sounding claims. Our results also suggest that a bias toward accepting statements as true may be an important component of pseudo-profound bullshit receptivity.

 

Basicamente, eles apresentam a vários grupos de pessoas frases e as pedem para avaliar a profundividade delas. Uma das partes mais interessantes do estudo é como eles medem a receptividade ao bullshit. Foram utilizadas frases criadas a partir de recombinações aleatórias das palavas do tweeter do Deepak Chopra e do New-Age Bullshit Generator. Os sites são um achado por si só e valem a visita. Vejam frases “profundas” que acabei de gerar:

  • Chopra: “Hidden meaning exists as precious positivity”
  • New-Age: “This life is nothing short of an evolving vision of enlightened choice. The goal of four-dimensional superstructures is to plant the seeds of guidance rather than dogma.”

Os participantes avaliam um conjunto de frases como essas. Se declaram que elas são profundas, são consideradas receptivas a bullshit. A partir das respostas mais vários testes para conhecer características pessoais, os autores relacionam as variáveis estudadas em diferentes contextos. Os resultados indicam que as seguintes características são comuns às pessoas mais receptivas a bullshit:

  • Estilo de raciocínio mais intuitivo
  • Dificuldade de reconhecimento de falácias
  •  Menos inteligência verbal
  • Confusão ontológica, isto é, acreditar que coisas metaforicamente verdadeiras são literalmente verdadeiras
  • Mais crenças religiosas
  • Crença em paranormalidade
  • Crença em medicina alternativa
  • Crença em conspirações

 

Reconheceu alguns lunáticos queridos? Eu também.

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