Contra os memes contra a meritocracia

Uma nova moda se alastra com toda força pela esquerda facebokiana. Não, não estou falando dos textões ou das notícias de site do calibre de um Brasil247. Falo sobre os memes com meritocracia como tema. Esse é um exemplo representativo:

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Essa simples imagem resume de uma só vez alguns dos erros mais irritantes e comuns da esquerda facebokiana. O primeiro deles é a prosopopéia fora de lugar. Ora,  meritocracia não é uma pessoa. Nem sequer uma mensagem unificada como um teorema, uma lei, instituição ou algo parecido. Logo, ela não pode dizer nada sobre o efeito do esforço do garotinho. Dizer “segundo a meritocracia” é tão sem sentido quanto dizer “segundo a parede” ou “segundo a multiplicação”. Essa é uma forma de falar imprecisa, e por isso inadequada, comum mesmo em discussões mais educadas. Falta na frase um sujeito que de fato seja capaz de agir e falar em sentido não-metafórico. Que tal trocar por “segundo fulano” ou “segundo os defensores da meritocracia”? Vejamos mais meme:

 

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Esse já é melhor no sentido de evitar uma prosopopéia desnecessária. Porém, comete um erro factual em relação ao grupo criticado. Ora defender a meritocracia, não significa dizer que ela existe. Significa dizer que ela é um ideal a ser alcançado. Tal distinção é fundamental e rotineiramente esquecida, mesmo em discursos sofisticados, sobre a meritocracia.  Isso é uma grave falha de reações públicas pois, ao gerar confusão ao leitor, fica parecendo que a pessoa é contra a ideia de que pessoas que trabalham mais devam receber mais. Na verdade, muitos provavelmente compartilham justamente porque se revoltam com o fato de tantos trabalharem tanto e terem tão pouco (talvez não todos, mas isso fica para depois.). Aí o amiguinho reaça não entende  e perde-se a chance de convencê-lo de algo.

Suponhamos então que você deseja compartilhar um desses memes. Já vimos que a mensagem dele não é exatamente contra a meritocracia, mas sim uma tentativa de mostrar que não a atingimos ainda. Se é assim, faça-se a pergunta, eu estou realmente trazendo alguma informação nova? A resposta é não.

Sinceramente, não conheço ninguém, em qualquer parte do espectro ideológico, que acredite que vivemos em uma meritocracia. “Mas e os liberais?”, alguém pode perguntar. Os liberais sabem que o governo pega o dinheiro da população e o distribui para os poderosos. Que mérito há na riqueza de Eike Batista? “E os conservadores?”, podem insistir. Os conservadores que conheço passam o dia reclamando da corrupção dos políticos, especialmente do PT. Um conservador que acredita em meritocracia deveria ser fã do filho do Lula, pelo seu rápido enriquecimento. Enfim, pode procurar. Você não vai encontrar quem esteja disposto a dizer algo como “na nossa sociedade, todos tem o que merecem”.

Concluindo, os numerosos tweets, memes  e textões sobre a meritocracia são apenas repetição de informação conhecida. Se ela parece agregar valor é porque sua forma confusa de se comunicar o faz ver profundidade onde há apenas um vazio.

No próximo post, defino  melhor algumas das visões mais comuns sobre o que seria uma sociedade meritocrática e apresento minhas visões sobre a sua desejabilidade. Mas já adianto uma coisa, eu sou contra.

 

 

 

 

 

 

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