A Islândia deveria ser um país chato. Localização inóspita, população minúscula, instituições antigas e duradouras, dentre outras coisas, fizeram o país um local estável e esquecido pela mídia por décadas. Mas isso mudou. E os piratas estão chegando. Vejamos um resumo de como chegamos até aqui.

O ponto de virada foi a crise de 2008. Após um rápido crescimento alimentado pelo setor bancário, a Islândia viu seus maiores bancos quebrarem e serem subsequentemente nacionalizados. Naturalmente, houve muita agitação popular e revolta contra a corrupção e contra as políticas econômicas liberais. Antes elas eram consideradas fonte do crescimento recente extraordinário, agora eram vistas como culpadas pela crise. O caminho islandês para lidar com a crise envolveu deixar sua moeda se desvalorizar (trazendo competitividade) e controles de capitais draconianos (tá disso eu não gosto). Mas o mais polêmico foi mesmo o calote. Os bancos nacionalizados eram devedores de depositantes estrangeiros (ingleses e holandeses principalmente), que estavam em busca de melhores rendimentos. Quando o governo virou dono dos bancos, ele simplesmente não pagou essas dívidas, pois considerava impossível fazê-lo, dado seu tamanho.

Nesse contexto, Gunnlaugsson foi eleito primeiro-ministro prometendo, entre outras coisas, negociar duramente com os credores do país. Mas aí vieram os Panama Papers. Eles revelaram que a esposa do primeiro-ministro era dona de uma empresa credora do país, denotando óbvio conflito de interesses. Pior ainda, em momentos anteriores ele havia afirmado que não tinha qualquer ligação financeira com credores da dívida e, pouco antes do parlamento passar uma lei de transparência, “vendeu” suas posses à sua esposa por um dólar.  Apesar de não ter feito nada ilegal, seus atos foram considerados obviamente imorais pela população que, já no clima pela crise, protestou e causou a sua renúncia em apenas um dia! (imagina se fosse no Brasil…).

E os piratas?! Bem, seu partido está estrategicamente posicionado para se  aproveitar do caos político instalado. Afinal, todos os outros estão arrasados. Após  tantas reviravoltas políticas e econômicas, os grandes partidos tradicionais são vistos como responsáveis pela crise, incapazes de lidar com ela e/ou corruptos. Hoje o Partido Pirata é o partido mais popular do país, mais de 30% de apoio a depender da fonte. Mais do que isso, a crise institucional pode levar a novas eleições parlamentares ou, caso não leve, elas vão acontecer de qualquer forma no próximo outono. Assim, existe uma chance real do país ser governado por uma coalizão onde o partido tenha uma posição de destaque. Mas o que querem os piratas?

Com uma ideologia difícil de definir , o partido tem uma pauta ampla. Entre outras coisas eles defendem:

  • Radical mudança das leis de copyright, de modo a propiciar uma comunicação mais livre e acabar com uma justificativa (luta contra a pirataria) de ataques à privacidade e  livre-expressão na internet
  • Democracia direta. Defendem que, com assinaturas de 10% da população, deveria ser convocado um referendo com valor legal (legally binding) sobre qualquer decisão do parlamento. O próprio partido dá o exemplo resolvendo debates internos via votos pela internet.
  • Transparência absoluta das ações do governo
  • Descriminalização das drogas com a adoção do modelo português como exemplo.
  • Tornar a educação mais diversa, flexível, próxima ao resto da sociedade e conectada a internet. Também reclamam da dificuldade de muitos jovens em encontrar um emprego no campo de estudo escolhido e pedem educação sexual obrigatória na escola primária
  • Várias interferências nos contratos financeiros existentes e potenciais de forma a defender os pequenos devedores. A única parte da proposta que gostei foi um vago plano de melhorar a portabilidade dos contratos.
  • Usar a internet e simplificações regulatórias para melhorar as pequenas e médias empresas e assim estimular a economia
  • Aumento do salário mínimo para um “living wage”
  • Livre-mercado, com uma forte rede de proteção social.
  • Renda mínima garantida

Mais informações sobre o partido podem ser encontradas no programa deles, assim como na entrevista de um de seus representantes no parlamento. Particularmente reveladora do estilo dos piratas é a seguinte fala:

For the Pirates in general and for us here in Iceland, the political “weather” is not blowing left or right; this is not a left-right [orientation] but an up-down one. Corruption and the abuse of power are our main focuses and so I would say we are libertarian-liberal…We´re not against capitalism, we are for free markets with a strong safety net in the tradition of the Nordic countries. But I´m NOT talking about laissez-faire capitalism.

Apesar de um tanto vagas, as ideias do partido podem ser bem radicais a depender da interpretação dada (de fato as mais claras são as mais radicais). Sinceramente, acho que o programa mistura propostas boas, ruins e perigosas. Não gostaria de ser governado por eles. Mas acho que pode dar certo e estou feliz que os islandeses estejam dispostos a tentar. Ver tal experiência só reforça minha visão de que a existência de muitas ( e pequenas) nações permite mais experiências sociais e que a humanidade aprenda com elas. Agora é esperar para ver. Boa sorte islandeses, o mundo está novamente assistindo e torcendo por vocês!

Mais links úteis:

Almost half of Icelandic nation now want the Pirate Party

Partido Pirata se torna o maior partido político da Islândia

Pirates Submit Proposal For Universal Basic Income In Iceland

With Iceland’s Pirate Party Surging in the Polls, Its Government Resists New Elections

This Radical Protest Pirate Party Is Now Leading Iceland Polls

Iceland’s Pirate Party takes big lead in polls ahead of election next year

John Oliver – Panama Papers: Iceland’s PM

pirate

 

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