Internet limitada (parte I)

Querem limitar sua internet. Como alguém que durante anos viveu com um limite de downloads de 2gb para uma casa de 4 moradores, sei o quão ruim isso pode ser. Mas como aqui no procrastinandojunto somos do contra, esse post tem algumas palavras positivas em relação a essa mudança, mas também, é claro, algumas palavras negativas em relação as operadoras.

I. O problema

Assim como em outros países, provedores nacionais de internet banda larga começam a oferecer planos com um limite máximo de downloads. Quando o usuário supera esse limite, sua internet pode ser cortada ou ter sua velocidade diminuída. A operadora Vivo, por exemplo, oferece apenas planos limitados. Como era de se esperar, essa política tem deixado usuários furiosos e votações virtuais contra a medida tem se espalhado. Mas há motivo para tanta raiva? Há sim.

O site olhar digital, fez um interessante experimento para medir quanto diferentes perfis de internautas gastariam. Vejamos os resultados:

  • Usuário leve:
    4 horas de navegação (1,6 GB) e streaming de um episódio de seriado do Netflix por dia (1,1 GB).
    Consumo mensal: Aproximadamente 78 GB
  • Usuário intermediário:
    4 horas de navegação (1,6 GB), 1 hora de streaming no YouTube (1,2 GB), um episódio de Netflix por dia (1,1 GB), além do download de dois jogos por mês (40 GB).
    Consumo mensal: Aproximadamente 157 GB
  • Usuário avançado:
    8 horas de navegação (3,2 GB), 2 horas de streaming no YouTube (2,4 GB), dois episódios de Netflix por dia (2,2 GB), além do download de oito jogos por mês (160 GB).
    Consumo mensal: Aproxidamente 394 GB

Agora compare com os limites de dados (número  à direita) praticados no mercado (fonte):

Oi

  • Planos até 2 Mb/s: 60 GB
  • 5 Mb/s: 70 GB
  • 10 Mb/s: 90 GB
  • 15 Mb/s: 110 GB
  • 20 Mb/s: 110 GB
  • 25 Mb/s: 130 GB
  • 35 Mb/s: 130 GB

Vivo

  • Banda Larga Popular: 10 GB
  • 4 Mb/s: 50 GB
  • 8 Mb/s: 100 GB
  • 10 Mb/s: 100 GB
  • 15 Mb/s: 120 GB
  • 25 Mb/s: 130 GB

NET Virtua

  • 2 Mb/s: 30 GB
  • 15 Mb/s: 80 GB
  • 30 Mb/s: 100 GB
  • 60 Mb/s: 150 GB
  • 120 Mb/s: 200 GB
  • 500 Mb/s: 500 GB

Por esses números, percebe-se claramente que a maioria dos planos não é capaz de atender uma residência com 4 usuários leves (4x78gb=312). A exceção solitária é o plano mais caro da NET e mesmo ele seria insuficiente se alguns dos moradores utilizassem mais intensamente a internet.

Dada a intenção das maiores operadoras de vender apenas planos com franquias e o futuro desaparecimento da GVT (uma das poucas sem franquia e que foi comprada pela Vivo), é provável que em pouco tempo a maioria dos brasileiros vão bater no limite de seus planos e terão que “economizar a internet”.

II. Como surgiu o problema: justificativas técnicas e possíveis práticas anticoncorrenciais

A chave para entender a justificativa das operadoras está no consumo simulado anteriormente. Notem que nosso usuário leve gasta parte substancial de seu consumo com Netflix. Caso ele apenas fizesse a navegação “normal” (mais detalhes), gastaria apenas 48gb (39% menos do que antes). O usuário médio piora ainda mais a conta com youtube e download de jogos. Não surpreendentemente, o site de streaming hoje responde por 37% do tráfego na internet mundial. E a tendência é que tal valor siga crescendo. Na América Latina, o Youtube é o campeão de tráfego com 21%. Mas o Netflix vem crescendo rapidamente (de 2.2% para 6.6% em 18 meses), possivelmente convergindo para o padrão mundial no longo prazo.

O que o parágrafo anterior nos revela é que formas de uso da internet que se popularizaram recentemente aumentam, e muito!, o tráfego de dados. Se antes fazer download de mais de 100 gb era algo restrito a geeks, hoje qualquer criança ávida por desenhos animados ou idoso fã de filmes consumirá essa franquia rapidamente sozinho. Como a infraestrutura dos provedores foi construída para atender um tráfego bastante menor, os usos recentes invariavelmente podem acabar por congestionar a rede. O resultado disso é internet mais lenta (já sentida) ou custos maiores com cabeamento e afins.

Assim, as operadoras decidiram cortar o “mal” pela raiz e limitaram o tráfego de dados. Manter o regime antigo (ilimitado) seria cobrar preços iguais de usuários que geram custos diferentes, tanto para a empresa (custos de infraestrutura) quanto para os outros usuários (velocidade). Tal tipo de arranjo raramente é eficiente. Pois, induz o internauta a não considerar os custos que impõe a terceiros e ele acaba baixando mais dados do que seria o ideal.

O caso é análogo ao problema de congestionamento nas cidades. Para cada usuário individual é mais rápido e confortável usar o carro. Mas se os motoristas decidissem deixar seus carros em casa, o trânsito fluiria melhor e todos chegariam a seus destinos antes. Pensando nisso, várias cidades adotam medidas que visam limitar o uso de automóveis individuais, como, por exemplo, proibir que pessoas usem carros com determinadas placas em determinados dias. Limitar downloads é a versão dessa política para a internet. Essa é a justificativa técnica.

Mas, como sempre em economia, não é só isso. Alguns acusam as operadoras de imporem esses limites para salvar os lucros das tvs por assinatura da concorrência com o Netflix, serviço que não teria utilidade para uma residência com franquia de dados baixa. Como muitas das provedoras de internet também comercializam TV a cabo, elas tem motivos para limitar o Netflix. Como elas são poucas, um acordo, implícito ou explícito, de atacar conjuntamente é factível. Na prática, a mudança quase que simultânea para pior (do ponto de vista dos usuários) dos planos oferecidos pelas operadoras é bastante suspeito. Seja ele explicitamente coordenado ou não, esse NÃO é um caso onde se aplicam as lições do modelo de concorrência perfeita que aprendemos em micro I e é possível que algumas intervenções estatais gerem ganho e bem-estar.

Qual a regulação ideal? Esse é o tema do nosso próximo post.

 

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