Impeachment: uma nota pessimista

O impeachment parece cada vez mais provável e cada vez mais próximo de acontecer. A julgar pela reação eufórica dos mercados cambial e acionário  a toda notícia que indique mudança de governo, parece que os meios especializados esperam um governo Temer que, se não vai ser brilhante, será muito melhor que o atual. Ouso discordar desse otimismo. Não que o governo atual seja bom. Pelo contrário, ele colocou o país em rota insustentável e dá a cada dia mais provas de que evitar o impeachment é para ele uma prioridade muito maior do que impedir o colapso econômico. Sou a favor do impeachment e acho que ele é a única chance de termos melhoras antes de 2018. A questão que levanto nesse texto é que, se a mudança de faixa pode melhorar o país, ela também pode piorar. Assim, chamo a atenção para alguns riscos que considero subestimados.

Se de fato tivermos um impeachment, Temer herdará um país economicamente quebrado que sequer consegue enxergar o fundo do poço. Os problemas são complexos e não há solução indolor, não basta apenas “parar de roubar”. E mesmo que bastasse, alguém realmente espera que o PMDB, partido de Sarney e Cunha, será um exemplo de ética?

A crise econômica ataca em três frentes: desarranjo das contas públicas, inflação e desemprego.A primeira é uma das principais causas da segunda. Já o desemprego se deve  aos dois problemas anteriores. Se tentarmos resolver esses problemas, o remédio, austeridade, irá causar recessão no curto prazo. O que justifica a decisão de demitir. E não se engane, a austeridade necessária para recolocar as contas públicas em caminho sustentável será brutal. Com cortes de gastos em todas as áreas do governo e aumento generalizado de impostos. Porém,  se não resolvermos o problema fiscal, o país poderá terminar a década com inflação e desemprego  bem acima de 10% e moratória da dívida. O que também justifica a decisão de demitir e sair correndo daqui enquanto há tempo. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

E Temer, como enfrentará o bicho? Até o momento, o PMDB tem se declarado a favor da austeridade. Não apenas isso, mas também defendeu algumas reformas liberais para fazer o país voltar a crescer. O problema é que o atual vice não tem legitimidade para impor remédios amargos à população. Boa parte do país sequer o conhece. E dentre os que sabem quem ele é, sua aprovação é pouco superior a da Dilma.

Mais do que isso, ele será visto pelos movimentos sociais como o sucessor ilegítimo da presidenta dos trabalhadores. O golpista que veio para “implantar o neoliberalismo”. Nesse cenário, espero uma radicalização da esquerda. Com muitas manifestações, quebra-quebra e talvez greves gerais. O resultado disso é que as reformas demorarão ainda mais para surtir o efeito desejado. Afinal, paz social é pré-requisito para o desenvolvimento. Com Temer, na melhor das hipóteses teremos 1 ano de convulsão social. Na pior, ele desiste das reformas e o país continua sua caminhada rumo ao precipício. Nesse cenário, a eleição de 2018 estará mais aberta do que nunca a aventureiros e malucos em geral.

Meu ideal seria de que o Temer renunciasse e convocasse novas eleições. Não sei se isso é legalmente possível e duvido que o futuro presidente tenha essa grandeza. Mas, se esse caminho for tomado, minha esperança é de que a sociedade possa discutir abertamente seus problemas e as possíveis soluções. Espero que os cidadãos se convençam da necessidade das reformas e as aceitem voluntariamente, elegendo alguém que deixe clara a amargura do remédio. Dessa forma podemos ter mudanças e (alguma) paz.

 

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Atualização: Recebi críticas de que o texto parecia defender que um governo Temer seria  necessariamente, ou provavelmente, pior do que o da presidenta Dilma. Não penso isso.  A fim de evitar mal-entendidos o final do primeiro parágrafo foi alterado. O resto do texto permanece igual.

 

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2 comentários sobre “Impeachment: uma nota pessimista

  1. Bom, há controvérsias.
    Um governo Temer aliado à oposição, como tem se discutido como cenário mais provável, com ele prometendo não se candidatar em 2018, teria os ingredientes necessários para um governo de transição com peito para as reformas necessárias. A promessa de não de candidatar não só atrai o PSDB e a oposição em geral para sua base, permitindo uma coalizão no congresso em favor de reformas, também reduz os incentivos perversos que se tem quando se está no poder de abrir mão de todo e qualquer ajuste impopular em prol de políticas de fomento, a saída escolhida pelo PT frente à sua impossibilidade de governar e alta desaprovação da presidente. Se Temer, de forma crível, não tentasse reeleição, um governo dele com apoio da oposição pode ser exatamente o que se precisa para passar o doloroso ajuste.
    Além disso, caso algo do tipo se concretize, veríamos um possível boom na confiança,com retorno de investimentos, retorno de capital estrangeiro, bom humor do mercado. A dor do ajuste pode não se mostrar tão alta, como não teria sido, ao meu ver, em um governo Aécio com Armínio na fazenda.
    No mais, resta ver o que se desenrola, o quão crível seria esse acordo PMDB – PSDB e como se desenrolam as investigações da Lava Jato. Com um olhar completamente frio (e certamente muito escroto) tudo que o país não precisa agora é que surja algo bombástico que destrua a imagem do Temer e sua possível governabilidade, ou uma impugnação da chapa no TSE, algo que considero menos provável, além de demorado.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olha, meu temor é mais localizado nas ruas do que no congresso. Imagine que o congresso apoie um ajuste fiscal para estancar a sangria. Ele provavelmente vai envolver a maioria dos seguintes elementos: aumento de impostos, privatizações, cortes de gastos discricionários com investimentos, pesquisa e programas sociais, congelamento do salário dos servidores públicos, congelamento de concursos e demissão de funcionários públicos. É um programa muito doloroso. Executado por um desconhecido que não estava nos debates. Que entrou no lugar do PT.

      Não acho que vemos um golpe. Mas muita gente acha. Se tivéssemos novas eleições, acho que esse elemento seria eliminado e com ele muitos riscos. Teríamos menos chance de ver o país parar. E é aquela coisa, o boom só vai começar quando houver confiança de que o bom rumo será mantido. E para isso precisamos de paz social.

      O primeiro melhor seria que a Dilma fizesse o ajuste, como você disse que ela faria e se gabou (eu teria feito o mesmo) por prever quando parecia estar certo no início de 2015. Mas hoje não existe mais essa possibilidade.

      Meu ponto é: há riscos. Vamos torcer pra mudança de governo, mas não vamos nos enganar de que será tudo uma maravilha depois, bom e sem chance de surpresas muito negativas.

      Sobre a questão do TSE, acho que esse é mais um motivo pro Temer renunciar. Já imaginou se ele entra, faz as medidas certas e, quando apenas o amargo do remédio foi sentido, cai? Esse cenário faria a situação atual parecer um conto de fadas.

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