Elogio aos aproveitadores

Muitos romantizam o altruísmo desinteressado. Eu fico mais maravilhado quando vejo uma pessoa ajudar a outra com motivos egoístas. Nesse post de estreia, vou explicar o fundamento lógico desse estranho senso estético.

Antes de tudo, explico que não sou anti-altruísta, muito pelo contrário. Apenas acho que não existe bondade suficiente no mundo. Imaginemos uma boa ação que não beneficia o benfeitor. Ora, se esse é o caso, apenas uma pessoa genuinamente interessada no bem do próximo exercerá tal atividade. Quantas pessoas estão dispostas a se sacrificar pelos outros? E se esses outros forem completos estranhos? E se esses outros forem de um determinado grupo (étnico, cultural, etc) antagônico? E se esses outros viverem tão longe a ponto de seus problemas serem facilmente ignorados? Pois é, me fazendo essas perguntas vejo que não há bondade suficiente no mundo para sustentar sozinha grandes esquemas de cooperação internacional e intercultural. Se dependêssemos apenas do altruísmo, não teríamos nada que envolvesse grande divisão do trabalho como, por exemplo, o computador que você utiliza para ler esse texto.

Podemos tentar mudar o estado humano, mas também podemos tentar aprender a viver com o egoísmo e tentar obter o melhor dele. De fato, buscar formas de compatibilizar egoísmo e convivência harmoniosa é um dos objetivos fundadores da economia.

Imaginemos agora uma ação que beneficia todos os envolvidos, ou em outros termos, que faz todos eles ficarem melhor do que estariam caso ela não fosse tomada. Até egoístas podem participar de uma cooperação dessas. Pronto, expandimos o alcance potencial da rede de ajuda. Melhor ainda se der lucro financeiro. Vamos para um exemplo concreto: uma padaria. Se ela der lucro, o padeiro seguirá fazendo pão e poderá se dedicar prioritariamente a isso no âmbito profissional. Poderá usar os ganhos financiar o aumento da produção. Melhor ainda, a chance de se dar bem atrairá mais gente interessada em trazer pão quentinho pra vizinhança. E assim o bem, ou o pão, no caso, se espalha.

Historicamente, alguns dos maiores avanços da humanidade se deveram ao trabalho de egoístas. Antes da revolução industrial (RI), a fome era comum na Inglaterra. A posse de ricas colônias não evitava isso. A ajuda do governo e igrejas era paliativa e, embora útil, não resolvia de vez o problema. A partir da RI, cada vez mais empresários ofereceram empregos  para pessoas operando as novas máquinas. Os ex-mendigos ficaram ricos o suficiente pra comprar comida. Mais do que isso, a competição por trabalhadores (alimentada pelos lucros das novas tecnologias) se acirrou ao ponto que a Inglaterra virou o país rico que é, com muito menos famintos e uma grande classe média. TODOS os países que enriqueceram passaram por processo semelhante, e agora a China trilha tal caminho.

Isso não quer dizer que todo ato motivado pelo egoísmo seja bom. No caso chinês mesmo, há incontáveis abusos, muitas vezes em conluio com Estado local. Mas, dado que o egoísmo é abundante e o altruísmo raro, precisamos aprender a conviver com o primeiro da melhor forma possível. Por isso fico tão feliz quando vejo a ajuda egoísta, aproveitadora. É nesse momento que eu vejo que há motivos para sonhar com um mundo melhor.

 

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